A vila de Manarola

Não me recordo da primeira vez que me deparei com uma imagem das Cinque Terre. Sei, porém, que as vilas coloridas passaram a fazer parte do meu dia a dia durante meu estágio na Viagem e Turismo entre 2019 e 2021, onde eu sempre estava escrevendo e pesquisando sobre o local.
Localizadas na Riviera Italiana, na região da Ligúria, as cinco vilas fazem parte de um parque nacional e têm aquela cara de cartão postal costeiro da Itália: casinhas coloridas amontoadas no penhasco e indo em direção ao mar. Nem todas tem uma praia, mas há diferentes pontos para entrar na água, desde praias de pedras até rochas para pular, se você curte uma aventura assim como eu. Os centrinhos são cheios de restaurantes e lojas, além de diferentes opções de hospedagens, embora não tenha muito agito depois das 21h, horário em que a maioria dos estabelecimentos fecha. Por isso, as Cinque Terre são ótimas pra conhecer em um passeio de um dia.​​​​​​​
Em setembro de 2026, seis anos depois do fim do meu estágio, me peguei planejando uma viagem para conhecer a região. Seriam quatro dias na Ligúria, com um dia inteiro dedicado a explorar as vilas coloridas. Eu estava sozinho e, para salvar um pouco de dinheiro dos valores exorbitantes do verão europeu, escolhi me hospedar em um hostel bem sociável em La Spezia, uma das cidades base para conhecer a Riviera Italiana. Você também pode escolher se hospedar em Genova, a capital da Liguria, mas o deslocamento até as vilas é mais longo e a cidade não facilita o acesso a outros lugares próximos, como Portovenere e Lerici.

Para o dia da visita, acordei às 8h, parei em uma vendinha para comprar um salgado e um café e segui para a estação de trem de La Spezia. Já dava para ver a fila se formando do lado de fora, onde uma multidão buscava informações sobre os trens. 

Como chegar nas Cinque Terre
É possível chegar em cada uma das vilas comprando bilhetes avulsos de trem ou se desafiando dirigir até lá. No entanto, para quem pretende conhecer e circular por elas no mesmo dia, a forma mais prática e eficiente é adquirindo o Cinque Terre Card. 
Esse cartão individual pode ser adquirido online ou presencialmente na estação de trem de La Spezia. Ele inclui viagens ilimitadas nos trens para as vilas durante o dia todo, uso do banheiro e wi-fi em cada uma das cinco estações, além de acesso a trilha Via Della Amore e a microônibus em uma das vilas, das quais já vou falar sobre. Em setembro de 2026, paguei €29,50. 
Os serviços podem variar conforme a época, assim como os trens podem sofrer atrasos não programados, mas geralmente passam a cada vinte minutos. Nas estações, procure por La Spezia ou Levanto nos painéis, já que são as estações terminais. No meu dia, peguei o trem em La Spezia às 9h47 e cheguei dez minutos depois em Riomaggiore, começando o percurso pelo sul e seguindo em direção ao norte.​​​​​​​

Estação de trem de Riomaggiore, uma das mais lindas estações que já vi

O que esperar de Riomaggiore
​​​​​​​A porta do trem vai se abrir direto para o mar, dependendo do vagão que você estiver, revelando um azul praticamente diamante. Existem alguns caminhos para chegar ao centro da vila, um subterrâneo e outro beirando a colina. Escolhi andar por esse segundo, onde reparei, à direita, em algumas pessoas tomando sol em umas rochas lá embaixo, beirando o mar. 
Sem hesitar, caminhei em direção até o início dessa trilhazinha, bem íngreme e com um corrimão de corda, para chegar nesse ponto quase exclusivo, já que não é todo mundo que se arrisca ali. As pedras são irregulares e é preciso procurar um ponto confortável para ficar. O acesso ao mar não é simples: só pulando ou escorregando nas pedras com cracas. De qualquer forma, é um bom lugar pra mergulhar, sem aglomeração.
Diferente do centrinho principal junto ao píer, de onde saem os barcos de pesca e passeios, que tem gente transitando por todo lado e buscando o melhor lugar para posar. As fotos mais icônicas da vila são feitas, na realidade, a partir da água ou tiradas do ar, por um drone. Aproveitei o momento para comprar um pedaço de pizza quadrada da RIOPIZZA Point e comê-lo sentado no murinho, observando a movimentação do lugar.
Arrisco dizer que Riomaggiore é a mais íngreme das cinco vilas, onde é preciso subir e descer vários lances de escada por vielas até chegar de volta à estação de trem. É ali, também, que se tem início a Via D’ella Amore, uma trilha pavimentada beirando o penhasco que chega a Manarola. O visual ao longo do percurso de menos de um quilometro é deslumbrante, com vegetações locais e até instalações temporárias de arte. 
É importante falar que vão sugerir que você marque um horário para fazer essa caminhada no próprio site do parque, mas, no meu caso, o único controle existente foi um carimbo feito no Cinque Terre Card no momento que comecei a trilha.
O que esperar de Manarola 
​​​​​​​A trilha termina junto da estação de trem, de onde é necessário seguir obrigatoriamente por um túnel de pedestres até chegar na rua principal. De cara Manarola se mostra maior e mais espaçosa que Riomaggiore, com diversos estabelecimentos dos dois lados da espaçosa rua.
Você anda até chegar na escada que leva à elevada Piazza Dario Capellini, que abriga um lindo painel em mosaico no chão retratando animais que vivem nos arredores da região. Desse ponto, é possível ver o principal ponto para nado, localizado junto a uma antiga rampa de barcos.
É um balneário bem cheio no verão, com toalhas espalhadas no chão e vários grupos encarando uma nadada ali. O acesso é bem fácil, contando com até um corrimão, mas também é possível pular das pedras direto na água. A área nadável não é muito grande, e também tem uma cascata desaguando no local que deixa certa parte da água meio turva, por isso segui andando pela trilha que beira o penhasco.
É daqui que se tem o melhor ponto para fotografar Manarola em toda sua grandiosidade, oferecendo o clique perfeito de casinhas, morro e mar no mesmo enquadramento. Se você virar à direita na primeira escada que encontrar, vai chegar num outro nível do penhasco onde estão alguns bares e restaurantes, mas se seguir pela via, chega-se no outro ponto para nadar.
É uma outra antiga rampa de barcos, mas todo lugar é mais vazio, sem nada desaguando ali e com a imensidão do mar para dar umas braçadas, além de uma escadinha para quem não quiser entrar de cabeça. Na minha opinião, Manarola é a melhor vila das Cinque Terre para nadar, já que tem dois pontos bem acessíveis pra banho de mar junto de um cenário montanhoso ao fundo.
O que esperar de Corniglia
​​​​​​​A única das cinco vilas sem acesso ao mar é consequentemente a menos visitada. Seu centrinho fica localizada no topo da colina e o acesso até lá é feito através de uma escadaria bem íngreme e com quase 400 degraus, divididos em 33 lances. Consegue imaginar esse percurso no verão italiano? 
Fiz o trajeto em oito minutos, num ritmo moderado, mas pode levar mais dependendo do fôlego de cada um. O lado bom é que tem uma torneira com água gelada assim que a escada acaba, onde pode formar uma filinha já que todo mundo quer se refrescar.
Corniglia me pareceu a mais residencial das vilas, apresentando uma atmosfera tranquila, onde notei escolas, quadras de esporte e uma via principal estreita, com mais lojinhas e doceiras do que restaurantes. O ponto ideal para fazer uma pausa, almoçar, tomar um drinque ou descansar junto da sombra é na praça em frente ao Oratorio di Santa Caterina. 
Diversas mesas de diferentes estabelecimentos ocupam o espaço, e escolhi fazer meu almoço tardio, para lá das 16h, no Il Buongustaio Cucina Casalinga, que foi nota 10 no serviço e apresentação dos pratos. Como minha fome era de outro mundo, pedi bruschettas com tomate e anchovas, seguidas de taglioni com mexilhões — ao traze-lo, a pela simpática garçonete pediu que eu cheirasse o prato antes do colocá-lo à mesa, uma atenção sem igual!
Da praça, vale continuar a caminhada até o fim da via para chegar ao ponto panorâmico para fotos. Há também um bar bem na encosta da montanha, com vistas arrasadoras. Aproveitei para assentar a refeição com uma caminhada sem pressa pelas vielas, andando sentido à gigantesca escada em direção a estação de trem. Por sorte, virei a direita na Via Stazione e descobri o melhor ponto para fotos panorâmicas das casinhas amontoadas. 

O bônus foi notar uma van, mencionada no começo desse texto, que surgia de cinco em cinco minutos descarregando e pegando passageiros bem na entrada do centrinho. Como surgida de uma oração, descobri que o veiculo era a alternativa para quem não quisesse subir ou descer a escadaria impiedosa. Apesar de não ter ar-condicionado, a van chega na estação de trem em menos de cinco minutos, aliviando em parte a jornada pelas vilas.
↑Back to Top